Pedro Ferret não escreve para agradar nem para acompanhar tendências. Sua poesia nasce do cotidiano, da rua, da conversa atravessada, do banal que quase ninguém repara, e é justamente desse lugar que ele constrói uma crítica afiada ao tempo em que vivemos. Em Inteligência Banal, seu trabalho mais recente, o poeta pelotense coloca a inteligência artificial no centro da obra, não como aliada criativa, mas como objeto de tensão.
A proposta é simples e radical ao mesmo tempo. Todas as letras são humanas; a música, feita por inteligência artificial. O resultado não tenta disfarçar a origem da ferramenta, pelo contrário, escancara seus limites. “É música falsa”, define Pedro. A máquina executa, copia estilos, reconhece padrões, mas não sente. O sentimento, insiste o poeta, continua sendo uma responsabilidade humana.
Longe de um discurso tecnofóbico, Inteligência Banal funciona como um espelho crítico de um tempo obcecado por eficiência, produtividade e repetição. Ao usar a inteligência artificial de forma consciente e assumidamente crítica, Pedro desloca a discussão do medo da substituição para algo mais profundo: o esvaziamento emocional da arte quando ela passa a ser tratada apenas como produto.
Essa reflexão não surge do acaso. Há oito anos escrevendo, Pedro sempre partiu do cotidiano como matéria-prima. Gente comum, cenas simples, encontros rápidos, vira poesia, crítica social e protesto. Ele rejeita a imagem do poeta intelectualizado e se coloca como poeta marginal, alguém que observa o mundo de dentro, não de cima.
A trajetória independente começou quase sem planejamento. Com dezenas de poemas guardados, ouviu do irmão mais velho, o comediante Décio Ferret, o empurrão decisivo para transformar o material em livro. Assim nasceram Versos sobre Ser Animal, depois o Projeto Não se Mate, inspirado na luta contra a depressão, e agora Inteligência Banal, sua obra mais conceitual até aqui.
Todas as 42 poesias de Inteligência Banal estão musicadas com inteligência artificial e disponíveis no YouTube, reunidas no álbum Poeta Pedro Ferret e Inteligência Banal fazendo música falsa. Um experimento que não busca respostas fáceis, mas provoca incômodos necessários sobre autoria, originalidade e sensibilidade em tempos automatizados.
Hoje, mesmo com emprego formal, Pedro reafirma que sua identidade central é a de poeta. O desafio é equilibrar o trabalho fixo com a produção e a venda dos livros, algo que impacta diretamente a circulação da sua obra. Ainda assim, ele segue insistindo. Vendendo os livros diretamente, na rua ou pela internet, mantendo a arte próxima de quem lê.
“Ser artista independente em Pelotas é muito difícil porque ninguém dá valor.”
Talvez seja justamente por isso que Pedro Ferret siga escrevendo, musicando, tensionando e ocupando. Porque, mesmo quando o valor não vem, a poesia insiste.
Pedro é pra ficar de olho!


