Durante uma passagem por Pelotas, o artista salvadorenho Paolo (Mon Doodle Book) pintou um mural em uma das paredes internas do Pelotas Bier Hostel. A intervenção foi realizada ao longo de duas semanas de estadia do artista na cidade e integra uma trajetória marcada pelo deslocamento e pela criação em espaços de passagem.
Nascido em El Salvador e atualmente residente em Montreal, no Canadá, Paolo tem na viagem parte central de seu processo artístico. Pelotas foi o primeiro destino do artista no Brasil, antes de seguir pela costa do país, com passagens previstas por cidades como Florianópolis, Rio de Janeiro e Salvador. “Pelotas foi meu primeiro destino no Brasil. Queria praticar o português e aprender sobre a história da cidade”, relata.
Pintado diretamente na parede, o trabalho reúne rostos estilizados, traços orgânicos e cores vibrantes. A escolha do suporte e do local não foi casual. “Pintar a parede do albergue já estava planejado antes da minha chegada. Quando cheguei, identifiquei a parede pelo tamanho e pela localização. Queria algo grande, em um lugar onde muitas pessoas pudessem ver”, explica. A pintura foi realizada na sala de café da manhã, espaço de circulação diária dos hóspedes.
A relação direta entre obra e arquitetura caracteriza o trabalho como mural. Diferente de telas ou suportes móveis, a pintura nasce integrada à parede e passa a existir como parte do ambiente, acompanhando seu uso cotidiano. O processo levou cerca de uma semana, sendo quatro dias dedicados à pintura. “No primeiro dia pinto tudo de preto. No segundo, adiciono as cores claras. Depois entram as cores mais escuras para criar sombra, e no último dia faço os retoques finais”, descreve.
O estilo visual do artista, marcado por rostos e cores intensas, já fazia parte de sua produção antes da passagem por Pelotas. Ainda assim, o contexto local influenciou o resultado final. “Quando cheguei, fui inspirado pelas pessoas simpáticas e colaborativas. Este mural representa o povo brasileiro, com suas diferenças, sempre com um sorriso no rosto”, afirma. Segundo Paolo, os rostos que se olham na composição simbolizam união e senso de comunidade.
Essa percepção aparece também na leitura que o artista faz da cidade e do país. “O que mais me chamou atenção no Brasil foi o senso de comunidade. Vindo do Canadá, que é um país muito individualista, foi revigorante ver como as pessoas convivem e colaboram juntas”, observa.
A presença de intervenções artísticas no espaço acompanha a dinâmica do hostel, que recebe viajantes ligados a diferentes áreas criativas. Segundo Fabrício, responsável pelo local, esse tipo de registro acontece de forma recorrente. “Sempre passam por aqui pessoas que trabalham com artes visuais, música ou escrita. Alguns acabam deixando trabalhos durante a estadia”, comenta. Ao longo do tempo, cerca de 15 artistas de diferentes estados e países deixaram pinturas ou intervenções nas paredes do espaço.


