A Companhia Turno 2, vinculada à Universidade Federal de Pelotas (UFPel), foi reconhecida com o Prêmio Pindorama pela videodança Kodama. A obra, construída a partir de uma performance realizada no balneário Cassino, em Rio Grande, emerge do encontro entre criação artística, pesquisa acadêmica e reflexão ambiental.
A Companhia Turno 2 é resultado de uma trajetória de pesquisa desenvolvida pela professora Daniela Castro, do curso de dança da UFPel, que há anos investiga as relações entre dança e envelhecimento. Antes da criação do grupo, a docente coordenou por uma década o projeto “Bailar: dança na maturidade”, em articulação com o grupo Baila Cassino, reunindo mulheres com mais de 60 anos na criação de obras cênicas com foco artístico.
A partir dessa experiência e de sua formação acadêmica, que inclui doutorado realizado em Lisboa, Daniela estruturou, em 2022, o projeto “Turno 2: pesquisa e criação artística”. A iniciativa propõe um desdobramento desse percurso ao reunir bailarinos e bailarinas com mais de 40 anos que já possuem experiência consolidada em dança.
A criação da companhia responde a uma questão recorrente no campo: a interrupção da trajetória de artistas devido à idade. “Há uma tendência de que as pessoas parem de dançar por volta dos 30 ou 40 anos, não necessariamente por vontade própria, mas por um entendimento social ainda presente sobre quem pode estar em cena”, aponta a proposta do grupo. Nesse contexto, a Turno 2 busca afirmar a presença de corpos maduros como portadores de potência estética, expressiva e criativa.
Atualmente composta por cerca de 18 integrantes, a companhia se organiza como um projeto de pesquisa universitária, o que se reflete tanto nos processos de criação quanto na circulação de seus trabalhos. O grupo mantém parcerias com instituições como a Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), participando de eventos acadêmicos, congressos e ações culturais.
Foi nesse contexto de atuação que surgiu a videodança Kodama. A obra tem origem em um convite do coletivo Câmara Verde, que desenvolve ações voltadas à preservação ambiental no Cassino. A proposta inicial era a criação de uma performance para integrar o documentário Isso Não É Uma Valeta, que aborda os impactos ambientais provocados pela canalização de um arroio na região.
A intervenção urbana, realizada pelo poder público, resultou na retirada de vegetação nativa e na alteração do curso do arroio, afluente do Arroio Bolaxa, afetando diretamente a fauna local, composta por aves e pequenos animais silvestres. O documentário, ainda em fase de edição, reúne depoimentos de moradores, especialistas e laudos técnicos que apontam alternativas ao modelo de intervenção adotado.
A participação da Companhia Turno 2 ocorreu em maio de 2025, quando o local ainda passava pelo início das obras. O processo de criação da performance partiu de uma imersão no território: o grupo visitou o arroio, percorreu o espaço e, a partir das percepções sensoriais e visuais, desenvolveu um laboratório de movimentos em ambiente fechado.
“Foi um trabalho construído a partir da experiência direta com o espaço”, sintetiza o processo. Após a etapa de experimentação, os bailarinos retornaram ao local para a gravação da performance, realizada entre árvores, estruturas de canalização e outros elementos presentes no cenário em transformação.
Inicialmente, o material foi produzido para compor o documentário. No entanto, a quantidade de registros gerou o desejo de desenvolver uma obra própria. A videodança Kodama surge, então, como um desdobramento desse processo, organizada a partir da edição das imagens captadas durante a ação.
A trilha sonora, composta por Danilo Salvade, colaborador do projeto e então monitor da companhia, também foi determinante para a construção da obra. O título da videodança deriva do nome da música, que remete a uma lenda japonesa sobre espíritos da floresta responsáveis por proteger a natureza.
A referência simbólica encontrou ressonância direta com o material coreográfico. “A ideia desses seres que coexistem em harmonia com o ambiente, mas que se manifestam diante da destruição, dialoga com o que estávamos fazendo naquele contexto”, sintetiza a relação entre conceito e criação.
Além de Kodama, a Companhia Turno 2 tem participado de outras iniciativas ligadas à educação ambiental, consolidando uma linha de atuação que aproxima arte e debate ecológico. A escolha por esses espaços reflete o entendimento de que a produção artística pode operar como ferramenta de sensibilização.
Nesse sentido, o reconhecimento pelo Prêmio Pindorama, que, nesta edição, teve como foco o meio ambiente, reforça o alinhamento entre a obra e a temática proposta. Para Daniela Castro, o prêmio amplia a visibilidade de trabalhos que abordam questões sociais e políticas por meio da arte.
A diretora também destaca o papel da dança como agente de transformação. Segundo ela, a arte atua na dimensão sensível, provocando reflexões que nem sempre são imediatas, mas que reverberam ao longo do tempo. “Mesmo quando o público não estabelece uma relação direta, a experiência estética pode abrir caminhos para novas formas de perceber o mundo”, indica a perspectiva do trabalho desenvolvido pela companhia.
Atualmente, o grupo se encontra em processo de criação de um novo espetáculo, intitulado Bah, inspirado na cultura gaúcha e desenvolvido em linguagem de dança contemporânea. A montagem conta com a colaboração da coreógrafa convidada Simone Lorenzi, bailarina com trajetória profissional fora do país e recentemente retornada a Pelotas.
A expectativa é que o espetáculo entre em circulação no segundo semestre, dando continuidade à proposta da Companhia Turno 2 de articular pesquisa, criação artística e reflexão sobre temas contemporâneos.


