Espetáculos de teatro, dança e performance ocupam palcos de Porto Alegre e evidenciam a força da produção artística do interior
Epetáculos que já tiveram circulação na Capital Gaúcha retornam para nova temporada. Um dos destaques é o espetáculo “Textos e Canções de Amor, Vingança e Morte”, da drag queen Abigail Foster, que cumpre temporada no Teatro Renascença entre os dias 8 e 17 de maio, refletindo o crescimento da presença drag nos teatros.
Também em temporada em Porto Alegre, o espetáculo “Axêro”, do grupo Tatá, ocupa o Teatro Carlos Carvalho, na Casa de Cultura Mario Quintana, de 17 a 17 de maio, em uma proposta que une dança, música, teatro e ancestralidade.
“Textos e Canções de Amor, Vingança e Morte”, de Abigail Foster, no Teatro Renascença”
Criada e interpretada pelo ator Gengiscan, a personagem nasceu em Pelotas e carrega uma trajetória que atravessa diferentes espaços, da noite aos palcos institucionais. “Eu sempre tive inspiração de atores transformistas e de drag queens”, afirma o artista, que iniciou sua jornada ainda no teatro e encontrou na drag uma linguagem que “parecia algo muito natural”. A peça, criada em 2017, surgiu pouco tempo depois do início dessa trajetória: “Um ano depois de começar a me montar já estava pensando a drag dentro do teatro”.
Ao longo dos anos, o espetáculo percorreu bares, universidades, festivais e teatros, consolidando-se como um trabalho contínuo. A montagem mistura relatos pessoais e ficcionais em uma narrativa sobre amores e desamores, com forte interação com o público. “É um espetáculo muito catártico, as pessoas sempre vêm me abraçar no final, muito emocionadas”, relata. A construção da personagem também dialoga com experiências vividas pelo artista, inclusive desafios enfrentados no início da carreira: “Tive respostas negativas de alguns professores quando interpretei personagens femininas, mas isso acabou me motivando mais ainda”.
A nova temporada em Porto Alegre marca um avanço importante, tanto pela dimensão do espaço quanto pelo contexto em que se insere. Para o artista, a presença drag nos teatros tem crescido nos últimos anos: “À medida que parece que muitas drags estão perdendo espaço dentro das baladas, a gente também está ganhando espaço dentro dos teatros”. Apesar disso, ele aponta que ainda há caminhos a serem percorridos no reconhecimento da linguagem: “Drag não é só teatro, não é só dança, não é só música. É tudo isso e outra coisa também”.
Em 2026, o trabalho também celebra uma década de existência da personagem. “Eu sempre tive muita noção de que drag seria o meu trabalho”, afirma. A circulação do espetáculo, que nasceu em Pelotas e segue ampliando seu alcance, evidencia a potência da cena drag, e o movimento de artistas do interior que buscam ocupar novos espaços e fortalecer a diversidade cultural nos grandes centros.

“Axêro”, do Grupo Tatá, no Teatro Carlos Carvalho
Outro destaque da circulação de artistas de Pelotas em Porto Alegre é o espetáculo “Axêro”, do Grupo Tatá, que retorna à capital para uma temporada no Casa de Cultura Mario Quintana. A obra, que atravessa diferentes linguagens e territórios, nasce de um processo iniciado ainda antes da pandemia e carrega uma trajetória marcada por reinvenções e circulação por diversos contextos.
Dirigido por Maria Falkembach, o espetáculo começou a ser criado entre 2018 e 2019, mas teve sua estreia interrompida pela pandemia. “A gente ia estrear em 2020 e veio a pandemia. Então, a gente acabou transformando ele num filme”, explica. A versão audiovisual, lançada em 2022, possibilitou a continuidade do projeto até sua retomada presencial, em 2023, após o grupo receber o prêmio Pretas Potências. “A gente teve um gás para poder retomar o espetáculo presencial”, afirma.

Em cena, Gessi Könzgen e Jão Cruz performam suas próprias histórias em uma proposta que se ancora em vivências, ancestralidade e memória. A criação é coletiva e se constrói a partir do corpo como linguagem, articulando dança, teatro e música em uma experiência marcada pela intensidade e pela ritualidade. “Toda a concepção e a dramaturgia do espetáculo foram criadas em processo”, destaca a diretora.
Desde sua estreia, “Axêro” tem circulado por diferentes espaços e territórios, incluindo apresentações em Porto Alegre, no Teatro São Pedro, e em cidades de outros estados. O trabalho também integrou projetos de circulação em comunidades quilombolas, propondo trocas diretas com os territórios. “A gente fez uma conexão com essas comunidades, com lideranças locais, e também levou oficinas de criação e produção”, relata Maria. As apresentações, muitas vezes realizadas em espaços alternativos, reforçam o caráter de adaptação e escuta do grupo.
A obra parte ainda de uma reflexão sobre Pelotas, cidade de origem do coletivo, tensionando sua história marcada pelo ciclo do charque e pela exploração de pessoas negras escravizadas. Ao levar essas narrativas para a cena, o espetáculo se afirma como um gesto artístico e político. Esse movimento também se desdobra na publicação Axêro: práticas antirracistas na cena e na educação, lançada pela Editora ANDA em 2026, que amplia as reflexões do trabalho para o campo da educação e das práticas antirracistas.

O impacto da produção pelotense
As apresentações de Abigail Foster e do grupo Tatá em Porto Alegre mostram como a produção feita em Pelotas tem encontrado outros caminhos de encontro com o público. São trabalhos diferentes entre si, mas que partem de uma mesma cidade e carregam, cada um à sua maneira, marcas de pesquisa, trajetória e criação artística desenvolvidas longe dos grandes centros. Em comum, também trazem a força de artistas que criam a partir de experiências historicamente marginalizadas, levando para os palcos da capital narrativas ligadas à cena drag, à negritude, à ancestralidade e à disputa por presença nos espaços culturais.


