Projeto ‘As Mulheres Por Trás dos Doces’ destaca trajetória e trabalho de mulheres doceiras da cidade de Pelotas
“As Mulheres Por Trás dos Doces” busca contar as histórias de mulheres que sustentam, preservam e transmitem a cultura doceira de Pelotas através das gerações. Por meio de um fotolivro e de um documentário, a iniciativa reúne relatos e registros do cotidiano de seis doceiras da cidade e região, destacando memórias, ancestralidade, resistência e o papel feminino na construção de um dos principais patrimônios culturais pelotenses.
Reconhecida nacionalmente pela tradição doceira, Pelotas construiu uma identidade fortemente ligada à produção artesanal de doces. Nos bastidores desse patrimônio cultural, existem histórias de mulheres que mantêm vivos os modos de fazer, os conhecimentos transmitidos entre gerações e as práticas que atravessam o cotidiano das cozinhas, das fábricas familiares e das comunidades.

Idealizado pelas fotógrafas Andressa Santos e Gabriela Cunha, nasce o projeto “As Mulheres Por Trás dos Doces”. A iniciativa reúne um fotolivro de 128 páginas e um documentário que registram a trajetória de Claudete Lessa, Sônia Mara Farias, Marli Bandeira, Lígia Maria Ribeiro, Cibele Costa e Cíntia Costa, mulheres de diferentes contextos sociais que compartilham a responsabilidade de preservar a tradição doceira da região.
Segundo Gabriela Cunha, o projeto surgiu da necessidade de ampliar o reconhecimento sobre quem realmente sustenta este patrimônio cultural.
Segundo Gabriela Cunha, quando se fala nesse patrimônio cultural, o destaque costuma ficar com os doces e os grandes eventos ligados à tradição. Mas a proposta é voltar o olhar para as doceiras, valorizando as histórias de vida, os saberes e o trabalho dessas mulheres que mantêm essa herança viva.
“Muitas vezes, quando a gente fala sobre esse patrimônio, o foco acaba ficando muito no produto final, nos doces, na Fenadoce, e não vai para as doceiras em si”, afirma. “A ideia realmente foi conhecer essas mulheres e ampliar esse reconhecimento delas, especialmente dar um olhar para essas trajetórias com mais humanidade.”
“Buscamos dar visibilidade para mulheres de diferentes contextos e trajetórias, incluindo doceiras que, muitas vezes, ficam fora dos espaços mais reconhecidos institucionalmente ou comercialmente, e ampliando o olhar sobre quem sustenta essa tradição no cotidiano, especialmente mulheres negras, periféricas, rurais ou que mantêm processos mais artesanais”, afirmam as fotógrafas.
A proposta também busca dar visibilidade para as doceiras que, frequentemente, ficam à margem dos espaços mais reconhecidos comercial e institucionalmente. Entre elas estão mulheres negras, periféricas, quilombolas e produtoras rurais que mantêm processos artesanais tradicionais.
As histórias retratadas no projeto revelam como o saber doceiro é transmitido principalmente dentro das famílias, através da convivência cotidiana e da memória afetiva. “A maioria delas não tem uma receita escrita. Elas aprenderam vendo as mães e as avós fazendo. É uma memória que carregam desde a infância”, explica Gabriela.
O projeto também resgata aspectos históricos da formação da tradição doceira de Pelotas. Os doces de bandeja, influenciados pela elite charqueadora do século XIX, eram produzidos nas cozinhas das grandes casas por mulheres negras escravizadas, responsáveis por dominar e aperfeiçoar técnicas que permanecem até hoje.
“Os doces são portugueses enquanto preparados em Portugal, mas quem fazia os doces aqui eram as mulheres negras escravizadas. Quem sabia fazer o ponto do doce, os ingredientes e as quantidades eram essas mulheres”, destaca Gabriela.
Além dos doces de bandeja, a iniciativa também evidencia a tradição dos doces de frutas, profundamente ligada às comunidades rurais da região e à produção artesanal em tachos de cobre. Entre as participantes estão Cibele Costa e Cíntia Costa, representantes da Doces Vô Jordão, uma das últimas produtoras de passas de pêssego artesanais de Pelotas.
Outro destaque é Lígia Maria Ribeiro, uma das fundadoras da Cooperativa dos Doceiros de Pelotas, criada na década de 1980, e considerada fundamental para fortalecer a comercialização dos doces e consolidar a cidade como “Capital Nacional do Doce”.

Também integram o projeto Claudete Lessa, Sônia Mara Farias e Marli Bandeira, lideranças do Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão, onde o preparo dos alimentos se relaciona com ancestralidade, redes de cuidado e resistência social.
Para Gabriela, um dos aspectos mais marcantes durante a produção foi perceber a força presente nas trajetórias das participantes. “Todas passaram por muito trabalho e seguiram sustentando esse saber até hoje. É uma forma de resistência”, comenta.
Ela afirma ainda que o principal objetivo do projeto é proporcionar reconhecimento a essas mulheres e às histórias que carregam. “Espero, acima de tudo, que elas se sintam vistas. Muitas vezes, quando se está imersa no trabalho cotidiano, não se percebe a grandeza do que se constrói”, diz.
O projeto “As Mulheres Por Trás dos Doces” foi realizado com recursos do Edital SEDAC/PNAB RS nº 27/2024 – Artes Visuais. O fotolivro pode ser adquirido pelo perfil oficial do projeto no Instagram.




