Nascido da adaptação de quatro composições de Eduardo Freda, o livro Arte Preta para Erês reúne textos do compositor e de Êmily Passarinho, com ilustrações de Jackeline Nunes, para transformar personagens, territórios e acontecimentos ligados à história negra do sul do estado, combinando literatura, música e imagem. A proposta é fazer da infância um espaço de reconhecimento, imaginação e pertencimento.
O lançamento, realizado em 27 de julho no Instituto Hélio D’Angola, foi apenas o ponto de partida. Desde então, o projeto passou a se desdobrar em ações voltadas à circulação da obra e à sua utilização como ferramenta educativa. A primeira tiragem, de 2.700 exemplares, foi viabilizada pelo Edital de Fomento a Projetos Culturais e Áreas Periféricas da Política Nacional Aldir Blanc. Metade da tiragem será distribuída gratuitamente a escolas, bibliotecas, instituições culturais e comunidades, enquanto a outra metade será comercializada para financiar a produção do novo EP da banda Preto de Sapato, da qual Freda e Êmily fazem parte.
Uma das principais frentes de atuação está na educação. Em parceria com a Assessoria de Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER), da Secretaria Municipal de Educação de Pelotas, a obra passou a integrar o acervo bibliográfico da rede municipal. Além da distribuição dos exemplares, o projeto promoveu uma formação com professores por meio de uma oficina cantada, aproximando o conteúdo do livro de metodologias antirracistas e possibilidades de trabalho em sala de aula.
A próxima etapa prevê 20 oficinas cantadas em escolas municipais de diferentes regiões de Pelotas, incluindo Três Vendas, Areal, Praia, Fragata, Centro e zona rural. Nas atividades, Eduardo Freda, Êmily Passarinho e Davi Batuka apresentam as músicas que deram origem à publicação, contam as histórias por trás dos personagens e convidam as crianças a cantar, conversar e reconhecer a cidade a partir de perspectivas historicamente pouco visibilizadas. Depois do percurso pelas escolas, a proposta é levar as atividades também a terreiros e bibliotecas comunitárias.
Nesse movimento, o livro procura alcançar um objetivo que ultrapassa a própria literatura infantil: contribuir para que crianças negras encontrem referências positivas de si mesmas nas narrativas e imagens que consomem, ao mesmo tempo em que amplia para todas as crianças o contato com uma história de Pelotas construída de maneira mais plural. A obra parte do entendimento de que a presença de personagens negros como protagonistas também ajuda a ampliar as possibilidades de imaginar futuros e compreender a diversidade cultural como parte da formação da cidade.
A dimensão artística é outro elemento central do projeto. Antes de existir como livro, as histórias já estavam presentes nas canções de Eduardo Freda. É a partir delas que a obra constrói sua narrativa literária, enquanto as ilustrações de Jackeline Nunes ampliam visualmente os sentidos das histórias e apresentam personagens negros com beleza e cuidado na representação. Nas oficinas, as músicas retornam ao centro da experiência, fazendo com que leitura, escuta, canto e imagem funcionem como partes de uma mesma linguagem.
Essa conexão entre diferentes formas de expressão também aparece na continuidade prevista para o projeto. A comercialização de parte dos exemplares financiará o novo EP do grupo Preto de Sapato, fazendo com que as canções que deram origem ao livro retornem ao campo musical em um novo trabalho. Assim, a literatura não encerra o percurso das músicas, mas amplia suas possibilidades de circulação e preservação.
As narrativas, por sua vez, permanecem profundamente ligadas ao território pelotense. Entre suas referências estão memórias locais, a religiosidade de matriz africana, os Lanceiros Negros, as antigas charqueadas e personagens populares, além de elementos como águas, quintais, terreiros, barro e árvores. Ao levar essas referências para o universo infantil, o projeto reivindica uma Pelotas também construída pela memória negra, pela ancestralidade e pela criação de seus diferentes sujeitos.
Arte Preta para Erês se apresenta, portanto, como um projeto em movimento. A intenção é que o livro circule por escolas, bibliotecas, terreiros e comunidades, provoque conversas e estimule novas criações. Ao aproximar crianças de histórias, músicas, imagens e artistas ligados à cidade, a iniciativa transforma a literatura infantil em uma ferramenta para preservar memórias e, ao mesmo tempo, imaginar outras formas de narrar o presente e o futuro de Pelotas.



