“Você é artista?” A pergunta que abre o quadro Pra Ficar de Olho, nas ruas de Pelotas, termina com uma resposta direta: “Eu sou ator”. Quem fala é Eduardo Mathias, mais conhecido como Mathias, performer que encontrou no próprio corpo o ponto de partida para criar uma obra autoral potente e necessária.
Natural de Caxias do Sul, ele veio para Pelotas cursar Licenciatura em Teatro na UFPel e hoje é bolsista do Núcleo de Teatro da universidade. Seu trabalho mais conhecido, O Mãozinha, nasceu em 2021, quando percebeu que precisava enfrentar as próprias inseguranças para seguir criando.
No espetáculo, Mathias fala sobre sua deficiência na mão direita. Mas não como limitação. Ele a assume como estética, como linguagem e como potência. Em cena, não esconde o corpo. Revela. E transforma.
O Mãozinha atravessa experiências que marcaram sua trajetória: bullying na escola, infância, mercado de trabalho, sexualidade e relações familiares. A diferença, no entanto, não aparece como obstáculo, mas como ponto de partida.
Após as apresentações, é comum que espectadores se aproximem para compartilhar histórias pessoais. Cicatrizes escondidas no verão. Características físicas que geram vergonha. Experiências silenciadas. O espetáculo abre espaço para que outros corpos também se reconheçam e falem em primeira pessoa.
O foco do seu trabalho é claro: inclusão pela arte. Corpos que durante muito tempo permaneceram à margem da cena passam a ocupar o centro da narrativa, não como objeto de discurso, mas como autores da própria história.
Formação, pedagogia e novas experimentações
A formação em Licenciatura também atravessa sua prática artística. O olhar pedagógico aparece na forma como pensa processos, mediações e oficinas para quem deseja iniciar no teatro, aproximando criação e ensino.
Entre os projetos recentes está a performance Corpo Violino, apresentada na Parada Livre, em novembro de 2025. Na criação, a deficiência continua presente, mas assume outra camada simbólica: o corpo como instrumento, capaz de produzir som, fricção e sentido.
A proposta é expandir possibilidades, não restringi-las.
Quando fala sobre o futuro, Mathias não projeta apenas carreira. Ele projeta comunidade.
“Minha criação só se torna completa quando outras pessoas também se sentem parte”, afirma. Para ele, o teatro é uma festa democrática de corpos em cena. Não apenas o seu, mas todos os que historicamente foram invisibilizados.
Em uma cidade que respira formação artística e abriga diferentes linguagens, sua presença amplia o debate sobre acessibilidade, representatividade e autonomia narrativa no palco.
Eduardo Mathias é, definitivamente, pra ficar de olho.


