Quem frequenta o Balneário dos Prazeres conhece a imagem de Iemanjá que, há décadas, recebe flores, pedidos e oferendas à beira da água. O que pouca gente sabe é que a escultura foi criada por Judith Bacci, artista autodidata que aprendeu a esculpir observando aulas na antiga Escola de Belas Artes de Pelotas, instituição onde trabalhou por grande parte da vida.
Nascida em 1918 e falecida em 1991, Judith da Silva Bacci construiu uma trajetória singular dentro de um ambiente cultural pouco acessível a mulheres negras naquele período. Funcionária da Escola de Belas Artes (EBA), que mais tarde se tornaria o Instituto de Letras e Artes (ILA) e hoje integra o Centro de Artes da UFPel, ela teve contato direto com salas, ateliês e aulas de escultura. Foi ali, acompanhando o trabalho do escultor Antônio Caringi e a rotina acadêmica, que desenvolveu seu conhecimento técnico de forma autodidata.
Mesmo sem formação formal, Judith passou a auxiliar estudantes nas aulas de modelagem e, com o tempo, foi reconhecida internamente como laboratorista em escultura, chegando a auxiliar professores. Seu percurso revela tanto talento quanto persistência em um contexto marcado por limites sociais e institucionais que atravessaram sua atuação artística.
Entre o sagrado e a cidade
A produção de Judith Bacci inclui bustos, corpos femininos e masculinos e imagens religiosas, realizados principalmente em argila e gesso, com influências do academicismo, do realismo e do expressionismo. Retratou figuras centrais da vida cultural, política e religiosa de Pelotas e do país, como Marina de Moraes Pires, diretora da EBA, além de personalidades nacionais e internacionais, a partir de registros fotográficos.
Entre suas obras mais conhecidas está a escultura de Iemanjá instalada na gruta do Balneário dos Prazeres. Para além de um trabalho artístico, a imagem se tornou parte do imaginário coletivo da cidade, sendo utilizada continuamente pela comunidade de fé nas celebrações dedicadas à orixá. A festa em homenagem a Iemanjá é reconhecida como patrimônio cultural imaterial do município, e a gruta se consolidou como um espaço simbólico central dessa tradição religiosa em Pelotas.
A presença constante da obra no cotidiano da cidade contrasta com o reconhecimento limitado que Judith recebeu ao longo da vida. Embora admirada por alunos e por críticos de arte locais, seu trabalho circulou por muito tempo de forma discreta, sem a visibilidade institucional condizente com sua relevância.
A imagem, o vandalismo e a preservação da memória
A trajetória da escultura de Iemanjá também é marcada por um episódio traumático. Na madrugada de 7 de abril de 2015, a imagem foi alvo de um incêndio criminoso na gruta do Balneário dos Prazeres, sofrendo danos severos que mobilizaram lideranças religiosas, a comunidade e o poder público.
Após o ataque, a escultura foi retirada do local e passou por um processo de restauração conduzido de forma particular, sob responsabilidade do restaurador Álvaro César Seara, especializado na conservação de imagens sacras e obras em gesso. À época, o trabalho exigiu cuidados técnicos específicos devido à fragilidade do material e à extensão dos danos causados pelo fogo.
A imagem restaurada foi apresentada publicamente em 5 de dezembro de 2015, em um ato simbólico no Chafariz das Três Meninas, no calçadão, antes de retornar à gruta do Balneário dos Prazeres, onde permanece até hoje integrada às celebrações dedicadas a Iemanjá.
O episódio evidenciou a vulnerabilidade de bens culturais ligados às religiões de matriz africana e reforçou o debate sobre preservação, respeito à diversidade religiosa e valorização da autoria artística.
Reconhecimento que se constrói com o tempo
Em 1988, Judith Bacci teve uma retrospectiva de seus 30 anos de carreira na Galeria Municipal de Arte de Pelotas. No mesmo ano, produziu uma de suas obras mais emblemáticas: Mãe Preta Amamentando Menino Branco, escultura que dialoga com o centenário da abolição da escravatura no Brasil e lança um olhar sensível sobre as relações raciais herdadas do período colonial.
Nas últimas décadas, sua obra passou a ser reconhecida por pesquisas acadêmicas, instituições museológicas e exposições nacionais, como Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, realizada pelo Sesc em São Paulo em 2023. Esse movimento tem contribuído para reposicionar Judith Bacci como uma referência importante para a compreensão da arte, da memória e da religiosidade afro-brasileira no sul do país.
Um livro para levar essa história às crianças
A trajetória de Judith Bacci é o tema do terceiro volume da série infantil As aventuras de Lu, escrita pelo autor Jorge Braga. Voltado ao público de 8 a 11 anos, o livro está finalizado do ponto de vista criativo, com texto, ilustrações e diagramação concluídos.
A série já apresentou às crianças pelotenses outras personalidades negras de relevância histórica, como Luciana Leopoldina de Araújo, fundadora do Instituto São Benedito, e Miguel Barros (1913–2011), artista plástico e ativista do Movimento Negro. O volume dedicado a Judith Bacci, no entanto, ainda busca apoio para viabilizar sua impressão e circulação em escolas e espaços educativos.
Enquanto o livro aguarda condições para chegar ao público infantil, a obra de Judith segue presente no cotidiano da cidade. Na imagem de Iemanjá no Balneário dos Prazeres, sua arte permanece viva, silenciosa, mas essencial, como parte da memória cultural e afetiva de Pelotas.


