— A senhora é artista?
A resposta vem com calma: “Olha, eu não sei se eu sou artista… talvez seja. Eu sou bordadeira. Mas, já que o bordado é uma arte, e o bordado é história, eu acho que eu sou artista.”
É a partir dessa percepção que se apresenta Maria Antonieta Dall’Igna. Aos 83 anos, a bordadeira mantém uma prática aprendida ainda na infância, em casa, que hoje se conecta a experiências de memória, convivência e expressão.
“Eu sou daquela geração que aprendeu a bordar com a mãe, desde criança. Era uma questão realmente doméstica”, conta. Com o tempo, o bordado passou a ganhar outros sentidos. “O bordado é importante para revelar a história, para guardar a história. E também para motivar as pessoas politicamente”, afirma, ao observar a existência de grupos de bordado que se organizam como forma de manifestação.
Em Pelotas, essa dimensão aparece no grupo Doces Linhas, que se reúne semanalmente no Museu do Doce. Criado em 2017 a partir de uma ação de extensão da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o grupo reúne bordadeiras de diferentes idades em encontros voltados à troca de saberes e ao desenvolvimento da prática. Antonieta esteve na origem desse processo, a partir de uma experiência ligada à formação em bordado.
Hoje, o grupo funciona como espaço de encontro e convivência. “Estar aqui é uma forma de viver melhor. Além de me fazer bem pessoalmente, é uma maneira de conviver com as pessoas e de fazer junto muitas coisas”, diz. Entre as participantes, há diferentes níveis de experiência, mas o trabalho se constrói de forma coletiva.
Professora aposentada, Antonieta borda diariamente e associa a prática ao cuidado com o outro. “É uma maneira de mostrar carinho pelas pessoas”, resume.
Ao longo dos anos, o grupo também participou de projetos e ações que ampliam o alcance do bordado para além do fazer manual. Nesse contexto, a prática se mantém vinculada à memória e às relações construídas no cotidiano.
“O bordado é afeto. O bordado é memória.”


