O músico pelotense Alex Moreira conquistou o prêmio de Melhor Intérprete do 17º Canto Missioneiro da Música Nativa, realizado entre 27 e 29 de março em Santo Ângelo. A composição premiada, intitulada “Yvytu Yma”, foi uma das 12 finalistas selecionadas entre 521 obras inscritas de todo o estado. O festival é um dos principais eventos do gênero no Rio Grande do Sul, avaliando critérios como letra, melodia, arranjo e interpretação diante da Catedral Angelopolitana. Este ano, a temática proposta foi os 400 anos das Missões Jesuíticas.
A obra vencedora tem letra de Alex Moreira e melodia composta em parceria com João Pinheiro. O processo de criação da música teve início em novembro de 2025, durante a primeira edição do festival Banhado da Canção, em Santa Vitória do Palmar, onde os autores desenvolveram a composição em um sistema de laboratório criativo de 24 horas. A temática do “vento ancestral” (Yvytu Yma) surgiu de pesquisas de Moreira sobre a mitologia guarani e o mito de Nhanderu. Para a melodia, utilizaram o ritmo de carnavalito, de raiz andina que fusiona a música ritual dos povos indígena com a métrica das danças europeias. Segundo o intérprete, a composição busca resgatar a visão guarani sobre a natureza, na qual o vento é visto como um canal de comunicação com os antepassados.
Para a apresentação no Canto Missioneiro, Alex Moreira reuniu um grupo de músicos atuantes na cena local. O arranjo foi produzido por Everson Maré (violão e vocal), contando ainda com Alci Vieira Jr. (acordeon e vocal), Ricardo Silva (baixo e vocal), Daniel Zanotelli (flauta) e Matt Thofehrn (percussão). Segundo os músicos, a composição foi bem recebida pelo público. E o diferencial da performance no palco foi a inclusão de elementos cênicos, como o uso de ventiladores para simular o movimento do vento nas vestimentas.
O grupo aproveitou a passagem pelas Missões para visitar as ruínas de São Miguel, buscando imersão histórica antes da “finalíssima”. Para Alex Moreira, o troféu de melhor intérprete consolida um trabalho de pesquisa e cooperação. “Estivemos no palco místico do Canto Missioneiro falando do vento ancestral formador de todas as coisas. O vento hoje é um mensageiro que sopra forte para a natureza gritar por socorro”, afirmou o músico após a premiação. A conquista reforça a representatividade de Pelotas e da Zona Sul na produção autoral da música nativista contemporânea.
Para Alex Moreira, a classificação de “Yvytu Yma” entre as 12 finalistas, em um universo de mais de 500 inscritas, já representa a principal vitória do grupo. “Classificar em um festival desse tamanho, com esse nível técnico, já é uma premiação; a gente comemora muito porque significa que a nossa produção chamou a atenção”, afirma o músico, que vê no êxito do grupo uma validação da qualidade artística da Zona Sul. A conquista ganha ainda mais peso diante da ausência de eventos do gênero na região, que já foi palco de festivais históricos, mas hoje carece de espaços contínuos para a troca e a difusão da música nativista. Para o intérprete, levar um time inteiramente local para um palco tão tradicional é uma forma de ocupar espaços e mostrar que, mesmo distantes geograficamente das Missões, a pesquisa e o respeito à herança cultural permitem que artistas pelotenses dialoguem com qualquer plateia sem estranhamento. A premiação individual de Melhor Intérprete coroa essa postura profissional e constante de Alex, que encara o troféu como um reconhecimento ao “combo” de entrega, técnica e verdade colocado em cena.


