Diretor e roteirista pelotense disputa vaga entre os finalistas da principal premiação do cinema nacional com o filme Espiral.
O cineasta pelotense Leonardo Peixoto está entre os nomes que disputam uma vaga na fase final do Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro, principal premiação do audiovisual nacional, na categoria Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem, com o filme “Espiral”. A obra, lançada nos cinemas em outubro de 2025, acompanha diferentes gerações de uma família de Novo Hamburgo ao longo de mais de três décadas, tendo como pano de fundo a ascensão e o declínio da indústria calçadista gaúcha.

O caminho até “Espiral” chegar ao circuito nacional começou muito antes da estreia nos cinemas. Segundo Leonardo Peixoto, a origem do filme remonta aos tempos da graduação em Cinema na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), da qual fez parte da primeira turma do curso. Uma cena que seria utilizada em seu Trabalho de Conclusão de Curso acabou nunca sendo gravada, mas permaneceu viva por mais de uma década até se transformar no núcleo dramático do longa.
“Era para ser meu TCC da faculdade de cinema da UFPel, mas a gente não conseguiu gravar na época. Essa história ficou comigo por mais de dez anos. Depois, vivendo em Novo Hamburgo, fui expandindo ela e a história dessa família foi contando também a história da cidade”, relembra.

Ao longo do processo de escrita, o diretor passou a relacionar a narrativa íntima da família fictícia com as transformações econômicas e sociais de Novo Hamburgo, município historicamente ligado ao setor calçadista. No filme, as mudanças no mercado global, a falência de fábricas e o impacto dessas rupturas sobre diferentes gerações aparecem entrelaçados às relações familiares.
“A cidade viveu um período de muita circulação de dinheiro e depois o mercado globalizado mudou. Muitas fábricas faliram e a cidade mudou bastante por isso. A gente resolveu contar essa história a partir dessa família, dentro das casas, pensando a passagem do tempo não numa linha reta, mas num formato de espiral”, explica.
A estrutura narrativa é justamente um dos principais elementos do longa. Em vez de seguir uma ordem cronológica convencional, “Espiral” alterna temporalidades entre os anos de 1982, 1994, 2000 e 2022, costurando memórias, afetos, silêncios e conflitos familiares. A proposta, segundo o diretor, era representar o tempo como algo circular, em que experiências, dores e heranças retornam constantemente.
A consolidação do projeto aconteceu durante a pandemia, quando o cineasta decidiu transformar o antigo curta em um longa-metragem. O impulso veio a partir de um edital de Novo Hamburgo voltado ao audiovisual, realizado em parceria com Ancine e Fundo Setorial do Audiovisual.
“Eu tinha essa família desse curta e já tinha feito um documentário sobre os 90 anos de Novo Hamburgo, então tinha muita informação sobre a história da cidade. Fui juntando as duas coisas e expandindo a história da família dentro do contexto histórico da cidade”, conta.
A produção foi realizada pela Convergência Produtora, em coprodução com a Bactéria Filmes e Sala Filmes, reunindo dezenas de profissionais do audiovisual gaúcho. Mesmo com as dificuldades, “Espiral” construiu uma trajetória de reconhecimento. O longa recebeu elogios da crítica e chamou atenção pela forma como articula memória, pertencimento e território, temas frequentemente presentes no audiovisual produzido no Rio Grande do Sul.

Para Leonardo Peixoto, isso está diretamente ligado à própria identidade do cinema gaúcho contemporâneo.“A gente não tem estrutura para fazer um blockbuster. Então a gente fala daquilo que nos diferencia, do que é nosso. É aquela velha história de falar da nossa aldeia para falar com o mundo”, afirma.
Nascido em Pelotas, Leonardo viveu na cidade até os 11 anos, mudou-se com a família para Novo Hamburgo, retornou à Zona Sul para cursar Cinema na UFPel e, depois de anos atuando profissionalmente no Vale dos Sinos, voltou recentemente a morar em Pelotas. Essa circulação entre cidades também atravessa sua formação artística. “Eu sou pelotense. Vivi em Pelotas até os 11 anos, depois voltei para fazer faculdade e agora estou morando aqui de novo”, resume.
Embora ressalte que talvez não seja oficialmente o primeiro egresso do curso de Cinema da UFPel a lançar um longa comercialmente nos cinemas, Leonardo reconhece o simbolismo desse percurso para quem acompanhou o crescimento do audiovisual universitário no interior gaúcho.
“Quando eu me formei, em 2010, não imaginava que seria em 2025 que eu lançaria meu primeiro longa. Cinema é construção. Eu já trabalhei muitos filmes, mas lançar o meu tem com certeza um sabor diferente. Eu tenho essa marca autoral aí para conversar com o público, que é quando o filme toma a vida definitiva”, diz.
E é justamente a reação do público que o diretor define como o aspecto mais emocionante da trajetória de “Espiral”. Segundo ele, diferentes espectadores acabam encontrando diferentes camadas dentro da obra.
“As pessoas se identificam por motivos muito distintos. Tem quem trabalhou na indústria calçadista e vê a própria família ali, tem quem se conecta com as relações familiares e tem quem se identifica com essa forma de enxergar a passagem do tempo. O filme tem várias camadas.”
Atualmente, “Espiral” está na fase semifinal da premiação, em que os membros da Academia Brasileira de Cinema votam para definir os finalistas de cada categoria. Para o diretor, a grande recompensa para a trajetória do filme seria estar entre os indicados finais, que chegam à grande final em 4 de agosto de 2026. “A gente está nessa campanha para chegar à final. Acho que a grande conquista seria estar entre os indicados finais. Essa seria a grande recompensa da trajetória do filme”, afirma.
Para além do reconhecimento individual, Leonardo vê a indicação como reflexo de um momento importante vivido pelo audiovisual gaúcho. Segundo ele, o Rio Grande do Sul já ocupa posição de destaque na produção cinematográfica brasileira e vem conquistando espaço em festivais nacionais e internacionais. “Acho que o cinema gaúcho tem cada vez mais força. A gente consegue enxergar o audiovisual também como mercado de trabalho. É importante perceber que dá para viver disso.”
Ao olhar para os jovens realizadores do interior do Estado, especialmente de cidades como Pelotas, o diretor diz esperar que a trajetória de “Espiral” funcione como incentivo para que novos projetos continuem surgindo.“Eu gostaria que eles sentissem que dá para fazer. Não é simples, mas dá para fazer. Quem está nessa missão do audiovisual é porque quer muito, porque isso faz parte da sua forma de existir no mundo. Então é continuar fazendo filmes.”



