Cia. de Dança Afro Daniel Amaro, em parceria com Senac, promove jantar artístico na quarta-feira (13), unindo gastronomia, dança e ancestralidade.
Na quarta (13), o foyer do Theatro Guarany recebe evento com dança, música e gastronomia inspiradas na cultura afro-brasileira. O evento integra as comemorações dos 25 anos da Cia. Daniel Amaro propõe uma experiência sensorial em que cada prato dialoga com a representação cênica dos orixás homenageados: Ogum, Oyá/Iansã e Iemanjá.
O projeto se consolida como uma afirmação cultural e política sobre a presença afro-brasileira na formação histórica de Pelotas. Em um dos espaços mais simbólicos da cidade, o foyer do teatro que completou 105 anos em abril, o espetáculo transforma o ato de comer em ritual artístico e experiência de memória.
“O evento surge como uma ramificação do espetáculo Dança dos Orixás, que realizamos na Charqueada São João desde 2017”, explica Daniel Amaro. Segundo ele, a ideia de unir gastronomia e performance começou a ser desenhada há anos, mas ganhou forma em 2022, quando a companhia estabeleceu parceria com o Senac. “A gente percebeu que sempre existiam menus portugueses, italianos, mas nunca um menu afro-brasileiro ou africano. Então resolvemos juntar forças para construir esse evento”, afirma.
A primeira edição ocorreu em 2022, no Mercado Público. A segunda voltou ao mesmo espaço em 2023 e, em 2024, o projeto foi realizado no terreiro da mãe Giza. Após um hiato em 2025, o evento retorna neste ano ocupando um dos espaços mais tradicionais da elite cultural pelotense.
“É trabalhar num teatro centenário e unir o patrimônio material ao imaterial. Onde antes aconteciam os saraus da grande sociedade pelotense, hoje vamos ocupar com uma grande celebração da cultura afro-brasileira”, destaca Amaro. “Provavelmente os negros naquela época estavam apenas na cozinha ou servindo. Hoje nós invadimos o foyer com dança, música e protagonismo.”
A proposta artística do evento está justamente na fusão entre os sentidos. Enquanto o público degusta os pratos inspirados nos orixás, bailarinos da companhia interpretam corporalmente as entidades representadas no menu. “Quando a pessoa estiver comendo um prato referente ao orixá, ela estará vendo aquele orixá dançando. É unir o sabor à visualização”, resume o diretor.

O cardápio da noite foi desenvolvido pela Escola de Gastronomia do Senac e nasceu a partir do projeto integrador dos alunos do curso de cozinheiro da instituição. O professor e orientador André Eduardo da Fonseca explica que os estudantes criaram o menu inspirados nos itãs, narrativas sagradas dos orixás, e nos regentes espirituais do ano de 2026.
“Os alunos escolheram homenagear Ogum, Oyá e Iemanjá. Eles pesquisaram sobre os alimentos ofertados a esses orixás e buscaram compreender os significados religiosos e simbólicos presentes em cada ingrediente”, relata. Segundo o chef, o processo foi além da estética gastronômica. “Não posso pegar qualquer alimento e dizer que ele representa um orixá. É preciso compreender a singularidade daquele elemento dentro da ontologia afro-religiosa.”
O resultado é um percurso gastronômico que conecta ancestralidade, memória e sensações. O couvert traz minis acarajés com vatapá dedicados a Oyá. Na entrada, lâminas de batata-doce fritas com patê de atum e ervas simbolizam o encontro entre Oyá e Iemanjá. Entre os pratos principais estão almôndegas de cordeiro no dendê com purê de abóbora e um purê rústico de feijão com costela bovina em homenagem a Ogum. A sobremesa — uma pavlova com creme azedo e frutas vermelhas — encerra a experiência evocando Iemanjá.
Fonseca ressalta que a gastronomia possui uma dimensão artística própria e efêmera. “Um quadro tu observa e guarda. Um espetáculo tu assiste. Já a gastronomia tu mastiga, consome. É uma experiência sensorial completamente diferente.”

Além da culinária e da dança, a quarta edição contará com apresentação musical do Sovaco de Cobra Trio, formado por Jucá de Leon, Gil Soares e Silvério Barcellos. O grupo, que recentemente celebrou duas décadas de trajetória, levará ao público repertório de choro brasileiro e regional.
A iniciativa também reforça o papel das instituições de ensino e cultura na valorização da herança afro-brasileira em Pelotas. Para Tiago Radmann, diretor do Senac,, apoiar o evento significa reconhecer uma dimensão fundamental da identidade local. “Falar sobre culinária de matriz africana em Pelotas é falar sobre a própria identidade da cidade. Pelotas carrega uma influência afro-brasileira profunda que está nos saberes, nos temperos e nas mãos que moldaram os sabores celebrados até hoje”, afirma.
Segundo Radmann, o Senac atua como ponte entre tradição e profissionalização. “Nosso papel é transformar esse saber ancestral em oportunidade profissional. O Jantar Performance & Culinária dos Orixás materializa isso e ajuda a cumprir a missão institucional da escola, que completa 80 anos em 2026.”
Com produção de Ana Julia Fortuna e direção artística de Daniel Amaro, o evento reúne bailarinos, músicos, chefs e estudantes em torno de uma proposta que ultrapassa o entretenimento. Em cena, a ancestralidade afro-brasileira deixa de ocupar espaços periféricos para assumir o centro de um patrimônio histórico da cidade.


