O cabelo que identifica Juaquim pelos corredores da Fenadoce começa a ser preparado ainda em dezembro. O mesmo acontece com o bigode, mantido durante meses para que, na chegada da feira, o público reconheça imediatamente o personagem. Por trás da transformação está Rodri Aliandro, artista de 47 anos que transita entre as artes visuais, o teatro, a música e a performance.
Natural de Jaguarão, Rodri mudou-se para Pelotas para cursar Artes Visuais. A trajetória acadêmica, porém, foi interrompida quando ele estava próximo de concluir a graduação. A decisão foi seguir outro caminho: entrou para o circo e passou a integrar o Grupo Tholl.
A aproximação com as artes cênicas começou ainda na universidade, quando Rodri e outros estudantes formaram um grupo independente de teatro e performance. O coletivo foi convidado a participar de uma oficina-teste para ingressar na Oficina Permanente de Técnicas Circenses (OPTC), antigo nome do Grupo Tholl.
Rodri foi selecionado e permaneceu durante dez anos na companhia, que ganhou projeção nacional com o espetáculo Tholl, Imagem e Sonho. Primeiro, participou de animações e, pouco depois, passou a integrar os elencos dos espetáculos, iniciando uma intensa rotina de viagens pelo Brasil. “Era uma correria. A gente saía de um ônibus, chegava em casa, trocava a mala e já saía de novo”, recorda.
Após deixar o grupo, Rodri retornou à universidade para concluir a formação que havia deixado em aberto. Também iniciou um novo momento profissional. Em 2014, entrou para o elenco oficial da Fenadoce.
Nos três primeiros anos, interpretou Vasco, um português apresentado como prefeito da Cidade do Doce. O personagem era metido, falava pouco e se comportava como dono da feira. Em 2017, Rodri decidiu criar uma figura com características diferentes. Surgia Juaquim, mais alegre, comunicativo e interessado em conversar com todos que passam pelos corredores. Segundo o artista, o personagem conhece suas origens, tem “consciência de classe” e se considera o próprio quindim da Fenadoce.
Parte do trabalho está na recepção do público. Juaquim posa para fotografias, participa de entrevistas, divulga a feira e acompanha visitantes que chegam de diferentes regiões do Brasil e de países vizinhos. “Eu acho que o papel do Juaquim é receber as pessoas com todo aquele carinho que elas merecem ao chegar a uma feira do tamanho da Fenadoce”, afirma.
Com o passar dos anos, o personagem também passou a acompanhar a história das famílias que visitam o evento. Algumas pessoas retornam anualmente para renovar a fotografia. Outras mostram imagens antigas, feitas quando os filhos ainda eram pequenos. “Às vezes, as pessoas mostram a foto dos filhos pequenininhos e depois dizem: ‘Olha aqui, está com 12 anos’. É um guri enorme. Acho que, além de impactar na minha vida, o Juaquim impacta na vida das pessoas também.”
A relação com o personagem também transforma a rotina do próprio artista. Rodri não mantém o cabelo e o bigode de Juaquim durante todo o ano, mas inicia a preparação meses antes da feira para preservar a continuidade visual construída desde 2017. “O Juaquim, para mim, é como se fosse meu melhor amigo. A Fenadoce já faz parte da minha vida, porque faz muito tempo que estou aqui”, conta.
Nesta edição, o personagem ganhou uma nova função. Além da tradicional interação pelos corredores, Juaquim passou a integrar um espetáculo inspirado no livro escrito por Jorge Braga e ilustrado por Mariana Pouey. A montagem apresenta às crianças uma história ligada aos doces e ao patrimônio de Pelotas.
No palco, o público também conhece outras habilidades do personagem, que aparece cantando e dançando. Para Rodri, a experiência faz parte de uma profissão que exige disponibilidade para diferentes linguagens. “Quando a gente é artista e tem isso como ofício, precisa fazer tudo. Tudo o que vier, a gente abraça e vamos junto”, diz.
Fora da Fenadoce, Rodri trabalha com artes visuais, gravura, escultura e música. Entre os projetos que pretende retomar está um espetáculo em homenagem a Ney Matogrosso, criado entre 2014 e 2015. A apresentação reúne cerca de 20 músicas cantadas por Rodri com acompanhamento de uma banda ao vivo. O projeto circulou pela região, foi retomado em 2019 e acabou interrompido durante a pandemia.
Agora, o artista planeja voltar às aulas de técnica vocal, reunir novamente os músicos e preparar figurinos para uma nova versão do espetáculo. A retomada deve começar após o encerramento do trabalho como Juaquim. “Sou muito fã do Ney Matogrosso. Acho que ele é um dos artistas mais maravilhosos que a gente tem no Brasil. É bacana poder fazer essa homenagem em vida”, destaca.
Rodri, é sem dúvida, um artista pra ficar de olho!



