Para entrar na casa de DJ Helô existe uma regra simples: os sapatos ficam do lado de fora. O cuidado com o espaço diz muito sobre quem vive ali. Discos, CDs, cartazes de festas, livros, fotografias, obras de arte e equipamentos de som ocupam praticamente todos os ambientes. Cada objeto parece guardar uma história.
Foi nesse cenário que o Arte-se realizou a sessão de fotos e a entrevista que marcam a escolha da artista como Destaque do mês de julho. A poucos dias de completar 65 anos, Helô vive o 41º ano de carreira em um momento simbólico. Em 2026, participou da histórica reabertura do Theatro Sete de Abril e segue em plena atividade, mantendo uma rotina de apresentações, projetos e encontros que ajudam a contar parte da memória musical de Pelotas.
A relação com a música começou muito antes da profissão. Filha de uma família humilde, Helô cresceu sem acesso aos discos que sonhava ter. Aprendeu a reconhecer canções ouvindo o som que escapava das casas da vizinhança. Guardava tudo na memória.
“Meu sonho era ter uma sala cheia de discos.”
Hoje, essa sala existe. Foi justamente nela que escolheu receber a equipe do Arte-se.



Ao redor do sofá estão centenas de discos, CDs e objetos reunidos ao longo da vida. Fotografias, cartazes e trabalhos do artista pelotense Guilherme Ges ajudam a formar um ambiente em que a memória pessoal de Helô se mistura à produção cultural da cidade. O mezanino, construído durante uma reforma, nasceu de uma conversa entre amigos. O sofá foi presente de outra amizade. Pouco do que existe naquela casa parece estar ali por acaso.
Esse vínculo com artistas locais também apareceu na construção do ensaio. A partir das propostas da stylist Emanuelle Cardoso, o figurino foi definido em diálogo com o estilo pessoal de Helô, que preferiu vestir peças próximas daquilo que já usa no cotidiano. Os dois looks escolhidos são da Vagnotreta Shop, marca criada pelo músico pelotense Vagnotreta. A decisão combina com uma postura que ela mantém há anos: apoiar e fazer circular o trabalho de quem produz cultura na cidade.
“Eu não posso me queixar da vida. A música me deu muito mais do que o prazer da arte.”
A carreira começou na metade da década de 1980. Em Santa Vitória do Palmar surgiu a primeira oportunidade de tocar para um público maior. Na época, tinha pouco mais de meia dúzia de discos. Quando voltou para Pelotas, encontrou uma cena noturna em que quase não havia mulheres atrás do som.
“Eu era a única mulher.”
O espaço foi conquistado aos poucos.
Vieram bares, boates, festas, casamentos, formaturas e festivais. Ao longo da trajetória, Helô dividiu eventos com artistas como Sandra de Sá, O Rappa, Mundo Livre S/A, Liniker, Rico Dalasam, Rapadura e Luiz Melodia, um dos nomes que mais admira. Também criou projetos próprios, como o Soul Vinil, além de transformar suas tradicionais festas de aniversário e de Réveillon em encontros aguardados por diferentes gerações de frequentadores.
O reconhecimento, no entanto, demorou mais a chegar para ela do que para quem a acompanhava.
“Faz pouquíssimo tempo que eu percebi que sou artista.”
A percepção nasceu quando passou a receber homenagens, convites para falar sobre sua trajetória e até trabalhos escolares inspirados em sua história. Durante a conversa com o Arte-se, Helô fala mais sobre pessoas do que sobre conquistas. Prefere lembrar dos amigos que ajudaram a realizar sonhos, dos artistas que conheceu e das relações construídas ao longo do caminho.
Essa autenticidade também explica algumas impressões que o público criou ao longo dos anos.
“Muita gente acha que eu sou antipática. Eu sou a pessoa que mais gosta de gente.”
Na prática, o que existe é uma personalidade firme. Helô nunca teve dificuldade em estabelecer limites. Também nunca moldou seu jeito para agradar contratantes ou seguir tendências.
A mesma convicção aparece na relação com a música. Enquanto grande parte da discotecagem migrou para computadores e plataformas digitais, ela continua tocando com CDs e preservando um acervo físico que levou décadas para construir.
“Com tudo o que passei para ter isso aqui, eu não vou guardar nem vender para trocar por um computador.”
A escolha não nasce de resistência ao novo. Helô acompanha artistas contemporâneos, pesquisa lançamentos e continua descobrindo novos sons. Mas acredita que o suporte também faz parte da experiência de ouvir música.



Em um dos momentos mais íntimos da entrevista, aponta para um retrato antigo do pai biológico, que nunca chegou a conhecer. Descobriu muitos anos depois que ele também gostava de música e tocava violão. A fotografia foi escolhida para ilustrar o cartaz de sua festa de aniversário de 2023 e, mais tarde, acabou emoldurada. Ao lado dela está a imagem da primeira casa onde Helô viveu por cerca de 30 anos. Duas fotografias que, lado a lado, ajudam a contar a história de quem ela é.
A reabertura do Theatro Sete de Abril colocou Helô diante de um espaço que já atravessava sua história havia décadas. No início dos anos 1990, quando Cássia Eller se apresentou em Pelotas, ela trabalhou uma noite inteira como garçonete para conseguir comprar o ingresso. O valor recebido deu apenas para entrar no teatro.
Foi também no Sete de Abril que assistiu Luiz Melodia, artista que considera seu maior ídolo, além de acompanhar espetáculos e festivais que ajudaram a formar seu repertório. Entre as histórias que guarda do teatro está a passagem de Taiguara, que, diante de uma plateia pequena, teria saído à rua para convidar pessoalmente quem passava a entrar e assistir ao show.
Em julho, Helô voltou ao Sete de Abril em outra condição. Convidada para integrar a programação da reabertura, recebeu o público do lado de fora, com uma seleção musical preparada para a rua. Em determinado momento, tocou “Funk Samba”, da Banda Black Rio. Um homem se aproximou para saber o nome da música e dizer que nunca havia escutado nada parecido.
A cena, simples e espontânea, traduz uma parte importante do trabalho de Helô: colocar em circulação músicas que formaram sua própria trajetória e criar novos encontros a partir delas. Décadas depois de trabalhar para conseguir entrar no Sete de Abril, ela estava ali ajudando a dar as boas-vindas ao público na retomada do teatro.
Hoje, Helô continua trabalhando praticamente todos os dias. Organiza bailes, mantém seus projetos, amplia o acervo de discos e segue recebendo amigos em casa, onde a música continua sendo o centro de tudo.
Questionada sobre o futuro, não fala em aposentadoria nem em grandes planos.
“Eu só quero viver. Enquanto tiver vida, eu faço alguma coisa.”
Talvez seja justamente essa simplicidade que explique por que DJ Helô ocupa um lugar tão particular na memória cultural de Pelotas.
Ficha técnica
Entrevista e reportagem: Henrique Giovanini
Fotografia: Iago Lanzetta
Styling: Emanuelle Cardoso
Produção: Arte-se
Agradecimento especial: DJ Helô, por abrir sua casa e compartilhar sua história com a equipe do Arte-se.


