No trabalho de Laura Sinnott, a tatuagem não começa no desenho nem termina na pele. Ela se constrói no encontro. Aos 16 anos, quando começou a tatuar, a decisão não veio de um impulso inconsequente, mas de uma relação antiga com o desenho e de uma experiência pessoal que redefiniu o sentido do que é marcar o corpo.
A primeira tatuagem que fez em si mesma, aos 15, foi uma rosa para cobrir cicatrizes de um período difícil. Ver aquela transformação acontecer na pele deu forma a algo que hoje atravessa todo o seu trabalho: tatuar é reorganizar significados. Não apagar o que existiu, mas criar outra leitura possível.
Suas referências vêm da natureza (plantas, texturas, formas orgânicas), mas não aparecem como ilustração direta. Elas se dissolvem em composições próprias, de traço autoral, muitas vezes em preto, que dialogam com o corpo sem tentar dominá-lo. Cada desenho é criado para uma única pessoa e tatuado apenas uma vez. Não há repetição, nem catálogo infinito.
O processo é construído em conversa. Algumas pessoas chegam já identificadas com desenhos disponíveis no Instagram (@inkarnada.888); outras trazem ideias que são reinterpretadas dentro do estilo da artista. O desenho nasce aos poucos, com ajustes, trocas e tempo de escuta. Laura faz questão de mostrar cada etapa, garantindo que a decisão final seja compartilhada.
Há também uma atenção clara ao espaço e à experiência. Tatuar envolve exposição, nervosismo, medo, especialmente da dor. Criar um ambiente seguro não é detalhe, é parte do trabalho. Uma de suas tatuagens mais recentes, um ornamento preto no braço, começou com uma cliente bastante apreensiva e terminou em silêncio tranquilo, música ao fundo e confiança estabelecida.
Laura Sinnott desenvolve uma prática que não tenta convencer ninguém. Quem chega, chega porque reconhece ali uma forma específica de olhar para o corpo, para a arte e para o tempo. Um trabalho em construção constante, atento, e que vale acompanhar de perto.


