Durante o Festival de Música do Sesc, quem chega a Pelotas encontra um anfitrião pouco convencional para tirar dúvidas sobre a cidade. Ele atende pelo WhatsApp, responde por texto ou áudio, compreende diferentes idiomas e se chama João Pelotas. A iniciativa vai além de uma uma solução tecnológica, ela nasce como um gesto simbólico de acolhimento, uma tentativa de ajudar a cidade a se apresentar melhor para quem chega.
A ideia surgiu de conversas recorrentes entre Daniel Cuca Moreira, Stela Nesello e Mateus Gomes sobre um diagnóstico compartilhado: Pelotas tem um potencial turístico evidente, mas ainda pouco traduzido em experiência para o visitante. O estalo veio fora do Rio Grande do Sul, durante uma viagem a Tiradentes (MG). Ali, observaram a forma como os moradores incorporam a hospitalidade no cotidiano. “Isso nos fez perguntar por que o pelotense não pode ser tão hospitaleiro quanto”, resume Daniel.
A resposta não veio em forma de campanha ou manual. Veio como um experimento. O João Pelotas foi pensado para preencher uma lacuna prática de auxílio ao visitante e, ao mesmo tempo, funcionar como inspiração para o próprio morador, reforçando a ideia de que a experiência turística começa no gesto cotidiano de quem vive na cidade.
A figura do anfitrião virtual é inspirada em João Simões Lopes Neto, referência fundamental da cultura local. Mas o projeto evita a ideia de uma transposição direta do escritor para a tecnologia. “João Pelotas não é só o escritor. É um nome comum, que representa como qualquer pelotense que ama sua cidade e reconhece sua vocação turística poderia ser”, explica Daniel.
Como vai funcionar
Na prática, o funcionamento é simples. Basta adicionar o contato no WhatsAppatravés do número +55 53 9945-0766, e iniciar a conversa (tanto por texto quanto por mensagem de voz). Durante o Festival de Música do Sesc, o anfitrião virtual responde a perguntas sobre horários de concertos, locais de apresentação e informações gerais sobre os músicos. Também pode orientar sobre outros temas ligados à visita, recorrendo a buscas externas quando necessário. A escolha do WhatsApp é estratégica: agiliza o acesso à informação sem exigir que o usuário abra novos aplicativos. “A tecnologia entrou como meio, não como fim”, afirma Cuca.
O lançamento do projeto durante o Festival funciona como um laboratório vivo. O evento reúne visitantes de diferentes regiões do Brasil e do exterior, muitos deles permanecendo na cidade por vários dias, o que permite testar o projeto em situação real. Um MVP cultural, pensado para um momento de fluxo intenso e diversidade de públicos.
Coletivo Casa Arrumada
Por trás do João Pelotas está o Casa Arrumada, formado por Daniel Cuca Moreira, Stela Nesello, Mateus Gomes, Bety Lovatel, Cleiton Decker, Simone Neutzeling, Andréa Bachettini, Luís Fernando Parada e Leonardo Branco. O projeto conta ainda com o apoio de Câmara de Dirigentes Lojistas, Associação Comercial de Pelotas e SESC, além de empresas parceiras.
Como parte da proposta, o coletivo também desenvolveu um folder impresso com orientações de hospitalidade física e comportamental, distribuído a moradores do entorno da Catedral São Francisco de Paula, que passa por um processo de restauro. A ação reforça a ideia de que a experiência turística não se limita ao monumento, mas envolve o território e as relações ao seu redor.
Ao explicar essa lógica, Daniel recorre ao conceito de acupuntura social, pequenas intervenções pontuais em microlocalidades que, ao ativarem espaços e relações, podem gerar impactos mais amplos no tecido urbano e comunitário. “Um monumento turístico não deve ser entendido isoladamente, mas empacotado por todo o entorno”, afirma.
No fim, a ambição do projeto é menos tecnológica e mais humana. “Gostaríamos que a pessoa sentisse que Pelotas acolhe sem esforço, que se revela aos poucos e que valoriza quem chega, não como visitante eventual, mas como alguém convidado a conhecer a cidade por dentro”, resume Daniel. Porque quem é bem recebido, volta.
Serviço
O João Pelotas pode ser acessado pelo WhatsApp, através do número +55 53 9945-0766, por mensagens de texto ou áudio, com atendimento em diferentes idiomas. O projeto está em fase piloto durante o Festival de Música do Sesc.


