As ruas do bairro Cohab Tablada, em Pelotas, tornaram-se mais uma vez o cenário de uma das expressões mais antigas de devoção da cidade. Na última sexta-feira (3), a Paróquia Santíssima Trindade realizou a tradicional encenação da Via-Sacra, um evento que há 35 anos mobiliza moradores para reviver os últimos passos de Jesus Cristo. O que começou em 1992 como uma iniciativa para aproximar os jovens da igreja, hoje consolida-se como um patrimônio cultural e espiritual do bairro.
A história da encenação remete ao trabalho pioneiro de Clomar e Vera que, ao lado do presbítero Cláudio, deram os primeiros passos da montagem na década de 90. De lá para cá, o figurino — que no início era improvisado com lençóis e tecidos simples — ganhou contornos mais realistas e produzidos. No entanto, para o coordenador da Via-Sacra, Elison Bitencourt, o rigor técnico é secundário diante da entrega emocional.
“Nós não somos atores de formação, a gente vivencia. É uma herança da nossa comunidade que todo mundo adora viver”, explica Bitencourt. Ele destaca que a preparação cria uma hierarquia natural e afetiva dentro da paróquia: “A gente começa como escudeiro, passa a soldado, depois sacerdote… as pessoas decoram as falas uns dos outros de tanto que convivem com a história. Não se explica, só se sente”.
Para quem assume o papel central da narrativa, a experiência ultrapassa o teatro. Uilen Affonso, também coordenador do evento e responsável por interpretar Jesus nesta edição, descreve o papel como uma missão de renúncia e jejum durante o período da Quaresma.
“Eu me entrego inteiramente ao Cristo. Temos a missão de tocar cada pessoa que vem rezar conosco e viver essa grande entrega de amor”, afirma Affonso. Para o intérprete, a responsabilidade de carregar a cruz pelas estações é uma forma de materializar a mensagem cristã para além das palavras.
Embora seja um rito católico, a organização enfatiza que a Via-Sacra da Tablada busca dialogar com toda a cidade, independentemente da crença de quem assiste. O objetivo é transformar o feriado em um momento de contemplação que supere o aspecto comercial da data.
“O valor cultural é de todos. Queremos passar para a cidade que a Sexta-feira Santa é muito mais que o peixe ou o chocolate; é sobre transbordar o amor de Cristo para quem vem nos assistir, seja pelo espetáculo ou pela fé”, conclui Elison Bitencourt.
Com o encerramento de mais uma edição, a Paróquia Santíssima Trindade reafirma o papel da arte e da religiosidade popular como ferramentas de união comunitária, mantendo viva uma chama que atravessa três décadas e meia no cotidiano pelotense.


