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Chegou o São João. E Leu Kalunga está em todas

Fotos: Iago Lanzetta 

Quando junho chega, Leu Kalunga parece estar em todos os caminhos do São João em Pelotas e região. Escolas, festas, bares e eventos encontram no Forrogodó uma presença nordestina em plena região Sul do Brasil. Mas a força do projeto não está só na agenda cheia do mês junino. Para a artista pernambucana, o forró é memória, sotaque, corpo e uma forma de manter viva a cultura que a acompanha desde Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, até o extremo sul do Rio Grande do Sul.

Artista do Mês de junho do Arte-se, Leu vive há nove anos no Estado e vem compartilhando, em Pelotas, aquilo que chama de sua “nordestinidade”. No repertório, aparecem o forró, o baião, o xote, o maracatu, o samba de coco e outros gêneros musicais nordestinos que fizeram parte da sua formação antes da chegada ao Sul. Com o tempo, esses ritmos também passaram a vestir sua presença artística na cidade.

“Eu venho compartilhando um pouquinho da minha nordestinidade, um pouquinho do meu Forrogodó, um pouquinho de maracatu, de samba de coco, ou seja, de elementos, de gêneros musicais nordestinos”, afirma.

A escolha de Leu como destaque do mês dialoga com as festas juninas, período em que o trabalho da artista ganha ainda mais visibilidade. Mas o recorte vai além do calendário. O Forrogodó, projeto criado há quatro anos, se consolidou como um espaço de encontro entre culturas, aproximando o público gaúcho de uma sonoridade de raiz, marcada pela zabumba, pelo triângulo, pela sanfona, pela oralidade e pela força da cultura popular.

Do mangue ao Sul

Antes de chegar a Pelotas, Leu cresceu em Jaboatão dos Guararapes, território que ela associa à periferia, à mata, ao mangue e a uma cultura viva. Quando pensa no Nordeste que a formou, a primeira imagem não é somente a da festa. É também a da natureza, da comunidade e das raízes.

“Quando eu penso em Nordeste, eu penso em mangue, penso em mata. Por isso que eu também gosto de me chamar de sereia do mangue”, diz. “Eu venho de um lugar onde tem muita cultura, mas também tem muita natureza.”

A vinda para Pelotas surgiu do desejo de mudar de vida e ingressar na universidade. Antes disso, Leu trabalhava em regime CLT, de domingo a domingo. A possibilidade de estudar abriu um novo caminho. Cotista racial e socioeconômica, ela encontrou na universidade um ponto importante de permanência na cidade.

Mas não foi somente a formação acadêmica que fez Leu ficar. A artista também encontrou acolhimento na cultura local, na comunidade negra e na luta das mulheres. Esses vínculos ajudaram a transformar Pelotas em um território de pertencimento.

“A universidade me deu uma permanência importante de estar aqui. A cultura também, o abraço que a comunidade me deu, a comunidade negra, a luta das mulheres, me fez ficar, me fez sentir pertencente de Pelotas”, conta.

O sotaque que virou caminho

Foi em Pelotas que Leu passou a perceber o próprio sotaque como uma marca artística ainda mais evidente. Ao cantar black music, samba e outros gêneros, ouvia com frequência comentários sobre sua forma de falar e cantar. Aquilo que poderia ser visto apenas como diferença passou a ser entendido por ela como território.

“As pessoas sempre destacavam o meu sotaque. Independente do gênero musical, se eu estivesse cantando black music ou samba, as pessoas falavam do sotaque”, lembra. “Eu pensei: eu tenho um território muito inicial. Sempre que eu falo, meu território já fala de onde eu sou.”

Durante a pandemia, esse processo ganhou profundidade. Isolada e distante do Nordeste, Leu começou a pesquisar repertórios, assistir shows, buscar documentários e mergulhar em referências da cultura nordestina. A saudade virou investigação. A distância, em vez de apagar a origem, intensificou o desejo de colocar esse território “mais pra jogo”.

Foi nesse movimento que nasceu o Forrogodó. Nos primeiros shows, a resposta do público ajudou a confirmar o caminho.

“As pessoas ficavam falando: estava faltando isso aqui em Pelotas. E eu pensei: que bom que eu venho agregar”, recorda.

O projeto reúne clássicos do cancioneiro nordestino, repertório autoral e gêneros como forró, baião, xote, maracatu e arrasta-pé. Para Leu, o Forrogodó é uma forma de compartilhar cultura nordestina no extremo sul do Rio Grande do Sul, construindo uma troca com a cidade e com os públicos que encontra pelo caminho.

Forró pé de serra como raiz

No centro dessa construção está o forró pé de serra. Leu reconhece a força de estilos mais recentes, como o piseiro, mas escolhe cultivar a base que a formou. Para ela, a zabumba, o triângulo e a sanfona carregam uma ancestralidade musical que segue viva, mesmo quando se transforma.

“O forró pé de serra é uma saudade que reverbera”, afirma. “Eu acredito muito nessa ancestralidade musical do forró nordestino, do forró do barro, do chão, da sala de reboco.”

A artista cita Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Marinês e Anastácia como referências importantes de um repertório que, para ela, precisa seguir sendo ouvido. Não se trata de nostalgia vazia. O forró pé de serra aparece como uma linguagem que atravessa o corpo, a memória e a forma como Leu se coloca no mundo.

“É um forró que eu cresci ouvindo. Está na minha corporalidade, está no meu lugar de fala, no meu lugar de pertencimento”, diz.

Essa escolha também ajuda a explicar a recepção do público gaúcho. Para Leu, mesmo com diferenças culturais evidentes, há um ponto de aproximação entre o Nordeste e o Sul: a valorização das raízes.

“O povo gaúcho reconhece que o forró pé de serra é uma música de raiz. E o povo gaúcho também é esse povo de cultivar raízes”, observa.

É nesse encontro que o Forrogodó circula. Em escolas, festas de família, eventos culturais e espaços tradicionais, o projeto leva um corpo musical nordestino para ambientes muitas vezes marcados por referências gaúchas. Leu percebe esse contraste como abertura. Para ela, o que acontece ali é uma troca cultural.

Junho é aconchego, mas o forró é o ano inteiro

Junho é, naturalmente, o período de maior movimento para Leu e para o Forrogodó. É quando a cultura junina ganha espaço nas agendas, nas escolas, nos clubes, nas famílias e nos eventos da região. Para a artista, o mês tem uma dimensão afetiva e profissional.

“O mês de junho, para esse projeto e para todas as cantoras de forró, é um mês de aconchego, porque é um mês em que a gente trabalha muito, reverbera a cultura e se alimenta também dessa cultura”, afirma.

Ainda assim, a missão de Leu não se encerra quando o calendário junino termina. Uma das principais lutas da artista é fazer com que o forró seja reconhecido como cultura viva e permanente no Rio Grande do Sul.

“Minha luta aqui no Rio Grande do Sul é o forró cultura viva e permanente. Um forró para além de junho, para além de julho. É um forró o ano inteiro”, defende.

Essa permanência depende também da produção independente. Leu conta que segue buscando espaços, divulgando shows, articulando apresentações e construindo público no boca a boca. Ela chama esse movimento de “correio nagô”, uma circulação feita pela rede de afetos, contatos e presenças que se fortalecem ao longo do tempo.

Um projeto que virou coletivo

Embora o Forrogodó nasça da trajetória de Leu, ela faz questão de afirmar que o projeto também é coletivo. A artista reconhece que existe uma solidão na experiência de quem é retirante nordestina e vive longe de seu território de origem. Mas, nos últimos quatro anos, essa solidão foi sendo atravessada pela construção de vínculos com outros músicos.

“Ninguém faz nada sozinho”, afirma. “Existe um espaço de solidão que a gente que é retirante nordestino sente. Mas nesses quatro anos eu fui construindo esse afeto com os colegas da música.”

Hoje, o Forrogodó conta com um corpo de artistas que ajudam a sustentar a sonoridade do projeto. Leu cita Davi Batuka, Gabriel Pinheiro, Giovani Marques, Lizi Peres, Gustavo Baldi e Gabriel Ávila como nomes que participam dessa caminhada. São músicos que ensaiam, estudam repertórios longos e contribuem para dar corpo a uma proposta que exige dedicação e pesquisa.

“Eu preciso desse coletivo de músicos que andem comigo fomentando essa cultura”, diz. “É um corpo de quilombo, de coletivo.”

Lizi Peres, que integra o projeto, vê o Forrogodó como um espaço de aprendizado e integração cultural. Gaúcha, ela conta que trabalhar com a música nordestina sempre foi um desejo e que a experiência ao lado de Leu tem sido importante tanto artística quanto pessoalmente.

Para Lizi, havia em Pelotas uma demanda por esse repertório. O público, segundo ela, recebe o forró com entusiasmo e encontra no projeto uma oportunidade de aproximação com ritmos como o xote, o baião e o forró pé de serra.

Régua e compasso

O futuro do Forrogodó, para Leu, passa pela ampliação dessa presença. A artista quer fortalecer o repertório autoral, circular por mais espaços e fazer com que a cultura nordestina seja reconhecida em Pelotas para além das imagens mais repetidas pela mídia ou das decorações típicas de junho.

“Acredito que o Forrogodó vai tomar conta cada vez mais de Pelotas”, projeta. Em tom bem-humorado, ela diz que, quando completar dez anos na cidade, quer receber o título de cidadã pelotense.

O desejo carrega brincadeira, mas também revela o vínculo construído com o território. Pelotas, para Leu, já não é só o lugar onde chegou para estudar. É também o espaço onde sua cultura encontrou escuta, onde sua voz ganhou novos caminhos e onde o forró passou a apresentá-la para públicos diversos.

No fim, quando precisa resumir o que o Forrogodó representa em sua vida, Leu escolhe uma imagem precisa.

“O Forrogodó representa a minha régua e meu compasso. É o forró que está me apresentando para as pessoas, que está me fazendo chegar em espaços.”

 

Fotos: Iago Lanzetta

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JUNHO 


04/06 — Cristiano Quevedo em Pelotas

Hora: 21h

Local: Johnnie Jack


07/06 — 40 Anos de Som da DJ Helô

Hora: 14h
Local: Em frente ao Galpão Satolep

Entrada Gratuita


09/06 — Sebrae na Estrada com Caito Maia

Hora: 17h
Local: Shopping Pelotas
Entrada Gratuita


13/06 — Cult Music Festival com Brisotti

Hora: 17h
Local: Moradas Pelotas


13/06 — Baile do Magnata com MC Paiva

Hora: 22h
Local: Sociedade Recreativa XV de Julho


20/06 — Trapbeatz Welcome Back feat. Veigh

Hora: 23h
Local: Associação Rural de Pelotas


25/06 — O Céu da Língua com Gregorio Duvivier

Hora: 19h
Local: Theatro Guarany


27/06 — Cris Pereira: Ponto Show 5.0

Hora: 20h
Local: Theatro Guarany


27/06 — Show da Nova Turnê do Djonga

Abertura: 20h30 | Início: 23h30
Local: Associação Rural de Pelotas


28/06 — Myah apresenta “Confissões de uma Drag Queen em Crise”

Hora: 21h
Local: Johnnie Jack


31/10 — Fundo de Quintal 50 Anos

Hora: 21h
Local: Theatro Guarany
Ingressos disponíveis online

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