Nascido em Montevidéu, com vivência na fronteira e há mais de 20 anos morando em Pelotas, Vicente Botti encontrou na música uma forma de reunir esses lugares. Aos 50 anos, ele é vocalista, compositor e um dos integrantes que sustentam a trajetória da Pimenta Buena, banda pelotense que construiu seu repertório em espanhol e fez da relação com a música latino-americana uma de suas principais características.
Vicente veio para Pelotas para estudar Turismo. Já tocava quando começou a ouvir de conhecidos que deveria encontrar “os guris da banda”, músicos com quem, segundo eles, teria bastante afinidade. O encontro deu origem à Pimenta Buena e também provocou uma descoberta que parece contraditória para alguém nascido no Uruguai: foi em Pelotas que ele passou a cantar em espanhol.
“Eu sou uruguaio, as músicas são todas em espanhol, mas eu sempre cantei em português. Quando começo a cantar em espanhol, conheço uma fonética materna que eu não tinha vícios”, conta. A mudança acabou influenciando diretamente a sonoridade do grupo. “Eu acho que também deu muita identidade para a banda.”
A partir daí, o espanhol deixou de ser apenas o idioma das letras e passou a fazer parte da maneira como a Pimenta Buena se apresentava artisticamente. O grupo desenvolveu uma mistura de pop e rock com referências como candombe, canção uruguaia e outros elementos da música latino-americana. Vicente assina a maior parte das letras, enquanto a construção dos arranjos é compartilhada com os demais músicos.
A banda lançou ao longo da trajetória os trabalhos Pimenta Buena (2008), Nada Original (2011), Disco 3 (2019) e Espina y Alma (2023). Algumas dessas canções ultrapassaram o circuito de shows e passaram a acompanhar histórias pessoais de quem conheceu o grupo.
“A sorte é ver, aqui em Pelotas e em vários lugares, ao longo dos anos, as pessoas cantarem as nossas músicas. As músicas tocam no rádio, pessoas entram em formaturas com músicas nossas ou encontram a gente na rua e dizem: ‘essa música é importante para nós’”, relata Vicente.
Nesse percurso, a Pimenta Buena dividiu apresentações com artistas como Vitor Ramil e Tonho Crocco e chegou a um dos principais reconhecimentos da carreira com Disco 3, que recebeu três indicações ao Prêmio Açorianos de Música em 2020.
A trajetória, no entanto, não foi linear. Entre 2012 e 2017, a banda viveu um período de menor atividade. Anos depois, por volta da pandemia, parte da formação voltou a se dispersar. Vicente e o baterista André Chiesa, os dois integrantes remanescentes da formação original, decidiram manter o projeto mesmo com a dificuldade de reunir uma banda fixa.
Vicente foi morar na região da Lagoa Mirim; André, em Joinville. Os shows se tornaram mais difíceis, mas a Pimenta Buena continuou como projeto de composição e gravação. Desde 2022, apresentações ao vivo passaram a contar também com músicos convidados.
“A gente achou muito injusto terminar a banda, porque tinha trabalhado muito. Então combinamos de fazer uma banda de discografia e seguir gravando”, lembra Vicente.
A retomada começou a ganhar outro ritmo a partir de 2025, quando o grupo gravou um projeto audiovisual e voltou a trabalhar músicas de diferentes fases da carreira. Canções como “Solo un Detalle”, originalmente lançada em Nada Original, e “Fogata”, presente no primeiro disco, ganharam novos registros.
A persistência levou a Pimenta Buena, em 2026, a uma etapa que dificilmente seria imaginada quando Vicente e André decidiram simplesmente não encerrar a história. Em abril, a banda anunciou a entrada para o casting da Midas Music, gravadora comandada por Rick Bonadio, produtor ligado a nomes como Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr., CPM 22, NX Zero, Rouge, Titãs e Ira!.
Segundo Vicente, Bonadio começou a trabalhar na produção de novas músicas do grupo em espanhol. Para ele, chegar a esse momento reforça a decisão tomada anos antes.
“Nessa resistência, seis, sete anos depois, a gente chega na porta do Rick Bonadio e se dá conta de que valeu a pena ter segurado e acreditado naquilo que a gente fez”, afirma.
É também uma etapa que coloca em evidência justamente aquilo que diferenciou a Pimenta Buena desde o início: uma banda criada em Pelotas, com repertório majoritariamente em espanhol, referências do outro lado da fronteira e uma produção independente construída longe dos grandes centros da indústria musical.
Agora, esse novo momento coincide com um retorno simbólico aos palcos. No domingo, 13 de setembro, a Pimenta Buena apresenta o show Pimenta Buena 20 anos, no Theatro Sete de Abril.
Vicente guarda uma relação particular com o espaço. No lançamento do primeiro disco, em 2008, a banda realizou uma ação no espaço em frente ao teatro então conhecido como Esplanada do Artista, hoje denominado Bere Fhuro Souto. Segundo ele, o local ainda estava sendo finalizado quando surgiu a possibilidade de utilizá-lo.
“Disseram: ‘é só ligar a tomada ali e inaugurar’. A gente inaugurou a Esplanada do Artista”, recorda.
No retorno ao Sete de Abril, a banda pretende montar também um memorial com fotografias e outros registros de sua trajetória. Mais do que retrospectiva, Vicente vê a apresentação como uma celebração de uma história que decidiu continuar justamente quando seria mais fácil encerrá-la.
“É para agradecer toda a galera que nos apoiou e festejar esse novo passo da Pimenta, que vai voar um pouco mais agora.”
Entre Montevidéu, a fronteira e Pelotas, Vicente encontrou no espanhol uma voz que ainda não utilizava na própria música. Quase duas décadas depois, essa escolha segue no centro da Pimenta Buena, agora diante de um novo capítulo.
Serviço
Pimenta Buena 20 anos
Domingo, 13 de setembro, às 20h
Theatro Sete de Abril
Ingressos pela TicketSul



