Depois de 25 anos construindo uma trajetória ligada à dança afro, a Cia de Dança Afro Daniel Amaro encerra as comemorações de aniversário com uma criação inédita inspirada em Luiz Melodia. O espetáculo estreia no dia 13 de setembro, às 20h, no Theatro Guarany, e leva ao palco 18 coreografias criadas a partir das canções do Poeta do Estácio, uma das principais referências de Daniel Amaro em sua própria formação como artista, homem negro e morador da periferia.
Com 18 coreografias, o trabalho não pretende reconstruir a trajetória do cantor de maneira biográfica. As músicas servem como ponto de partida para abordar relações amorosas, conflitos existenciais, vida urbana e questões sociais e políticas presentes em sua obra. A criação reúne os coreógrafos Daniel Amaro, Wallace Araújo, Bella Timbaí e Luciano Tavares.
“Falar através do corpo” sobre Luiz Melodia, explica Daniel, é também uma forma de reconhecer uma influência que ultrapassa a música.
“Fui uma pessoa que me influenciei muito com suas músicas e suas letras, na minha formação como cidadão, como ser humano, como artista. Para mim é muito importante fazer essa homenagem”, afirma.
Do Estácio a Pelotas
Cantor, compositor e violonista, Luiz Melodia nasceu e cresceu no Estácio, no Rio de Janeiro, e ganhou projeção nacional no início dos anos 1970. Antes mesmo de lançar seu primeiro disco, suas composições já haviam chegado às vozes de artistas como Gal Costa e Maria Bethânia. Em 1973, lançou Pérola Negra, álbum que reuniu músicas como Magrelinha, Estácio, Eu e Você e Estácio Holly Estácio. Ao longo da carreira, transitou entre samba, rock, blues, soul e outras referências da música brasileira, mantendo uma produção difícil de enquadrar em uma única linguagem. Melodia morreu em 2017, aos 66 anos.
É justamente essa liberdade que interessa à nova montagem. Para Wallace Araújo, coreógrafo e bailarino convidado, levar Melodia para a dança significa trabalhar também com um artista que rompeu expectativas sobre aquilo que deveria produzir ou representar. “Luiz Melodia não era um artista de obediência. Muito pelo contrário, ele rompia fronteiras”, resume.
Carioca, Wallace conhece Daniel Amaro há mais de duas décadas. Sua relação com Pelotas começou em 2005, quando veio à cidade a convite do coreógrafo para participar de um festival de cultura afro-brasileira. Agora, retorna para construir uma obra em torno de outro artista do Rio de Janeiro, mas sem a intenção de simplesmente transportar para o palco imagens prontas do Estácio.
Para ele, as canções oferecem caminhos para falar de urbanidade, romance, crise e questões existenciais, mas a coreografia também precisa passar pelas experiências dos artistas que estão em cena e pelo território em que a montagem é criada. “Cada trecho musical tenta roteirizar um caminho do possível, um reflexo do que pode vir a ser, não uma afirmação”, explica Wallace.
A aproximação entre Melodia e Daniel também passa por experiências compartilhadas, ainda que construídas em cidades e momentos diferentes. Wallace chama atenção para a identificação de Daniel com um artista negro e periférico que encontrou na própria produção cultural uma forma de construir sua presença e sua trajetória.
Daniel reforça que essa ligação está na origem do projeto. As músicas de Melodia acompanharam sua juventude e ajudaram a formar não apenas suas referências artísticas, mas sua percepção de si mesmo.
As músicas ganham corpo
Em cena estarão Ana Carolina Silva, Karol Mendes, Lisiane Ferreira, Luciano Costa, Mayson Gonçalves e Mayander Fernandes, integrantes da companhia, além de Wallace Araújo como bailarino e intérprete convidado. A direção artística é de Daniel Amaro.
O repertório reúne músicas de diferentes momentos da carreira de Melodia. Entre elas estão Mistério da Raça, Que Loucura, Negro Gato, Felino, Fadas, Estácio, Eu e Você, Estácio Holly Estácio, Congênito, Magrelinha, Pérola Negra e Juventude Transviada. A escolha das canções passou também por uma enquete realizada nas redes sociais da companhia.
A presença de Melodia no palco não ficará restrita à trilha sonora. A cenografia utilizará imagens do artista e registros com sua família no Morro do Estácio, cedidos para a montagem. A estreia terá ainda uma convidada especial: Jane Reis, viúva de Luiz Melodia, estará em Pelotas para acompanhar a apresentação. “Quero gentilmente agradecer à esposa do Luiz Melodia, a Jane, que estará presente em Pelotas na estreia do espetáculo”, destaca Daniel.
A montagem chega ao palco no encerramento de um ciclo comemorativo da Cia de Dança Afro Daniel Amaro, que ao longo de sua trajetória desenvolveu espetáculos como Reminiscência, Tambores do Corpo, Homens Ifá, Maria, Marias, Rio de Sangue, A Dança dos Orixás, Fuzuê e São Lázaro — O Omolú dos Humanos, além de realizar apresentações em diferentes estados brasileiros e países do Mercosul.
A estreia, no entanto, não foi pensada como ponto final. Daniel afirma que a intenção é levar o espetáculo para outras cidades e fazer com que esse encontro entre a dança da companhia e a obra de Luiz Melodia continue circulando. “Para mim é muito importante que essa estreia seja em Pelotas, mas a proposta é que ela circule pelo Brasil todo.”
O espetáculo integra o projeto Andanças nos Caminhos da Cultura, parceria entre a Cia de Dança Afro Daniel Amaro e a Organização Caminhos da Cultura.
Serviço
Espetáculo da Cia de Dança Afro Daniel Amaro inspirado em Luiz Melodia
Quando: 13 de setembro, às 20h
Onde: Theatro Guarany
Entrada solidária: 1 kg de alimento não perecível
Os ingressos poderão ser retirados na bilheteria do Theatro Guarany nos dias 9, 10, 11 e 12 de setembro, das 11h às 16h.



